Com um sopro delicado, fez três bolhas de sabão e sorriu. O céu estava extremamente azul, eu estava deitado olhando para cima e vi seu rosto sobre o meu com o fundo claro azulado de um sábado de sol. "Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome", cantarolava. Havíamos ido para o parque passear e tirar o mofo do inverno de nossos corpos. Era, talvez, o primeiro sábado de sol de verdade depois de tantos dias cinza, com chuva.
"Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores". A gente levou uma canga de praia para o parque e escolheu um lugar entre a sombra e o sol. Os cachorros corriam para todos os lados, os donos se sentiam muito legais por terem cachorros, mas nós só tínhamos o tempo livre, um ao outro, e um copo com sabão e água para as bolhas que explodiam em meu nariz. "Passeio pelo escuro e presto muita a atenção no que meu irmão ouve e como uma ferida aberta um calo, uma casca protetora, ah, eu quero chegar antes"...
Eu não sabia, mas aquela talvez fosse a época em que fomos mais felizes. Nossos problemas eram poucos, e sabíamos. Nossas roupas eram apropriadas para todas as situações, e gostávamos. E, melhor que tudo, tínhamos um mundo de possibilidades a nossa frente: bastava sonhar, e o sonho poderia se realizar nos anos seguintes. Bastava sentir, e o amor era o mais sincero de todos os tempos. Bastava um beijo e a pele eriçava ao mínimo toque.
Tínhamos um fusca bege, que você chamou de Brigitte em homenagem à Bardot. O horóscopo era o nosso oráculo, líamos Caio Fernando Abreu como se fosse escrito por nós mesmos. Até conhecermos os nossos dragões, aqueles que não conhecem nem sabem nada de paraíso.
"Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores". A gente levou uma canga de praia para o parque e escolheu um lugar entre a sombra e o sol. Os cachorros corriam para todos os lados, os donos se sentiam muito legais por terem cachorros, mas nós só tínhamos o tempo livre, um ao outro, e um copo com sabão e água para as bolhas que explodiam em meu nariz. "Passeio pelo escuro e presto muita a atenção no que meu irmão ouve e como uma ferida aberta um calo, uma casca protetora, ah, eu quero chegar antes"...
Eu não sabia, mas aquela talvez fosse a época em que fomos mais felizes. Nossos problemas eram poucos, e sabíamos. Nossas roupas eram apropriadas para todas as situações, e gostávamos. E, melhor que tudo, tínhamos um mundo de possibilidades a nossa frente: bastava sonhar, e o sonho poderia se realizar nos anos seguintes. Bastava sentir, e o amor era o mais sincero de todos os tempos. Bastava um beijo e a pele eriçava ao mínimo toque.
Tínhamos um fusca bege, que você chamou de Brigitte em homenagem à Bardot. O horóscopo era o nosso oráculo, líamos Caio Fernando Abreu como se fosse escrito por nós mesmos. Até conhecermos os nossos dragões, aqueles que não conhecem nem sabem nada de paraíso.
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