quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fez três bolhas de sabão e sorriu

Com um sopro delicado, fez três bolhas de sabão e sorriu. O céu estava extremamente azul, eu estava deitado olhando para cima e vi seu rosto sobre o meu com o fundo claro azulado de um sábado de sol. "Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome", cantarolava. Havíamos ido para o parque passear e tirar o mofo do inverno de nossos corpos. Era, talvez, o primeiro sábado de sol de verdade depois de tantos dias cinza, com chuva.

"Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores". A gente levou uma canga de praia para o parque e escolheu um lugar entre a sombra e o sol. Os cachorros corriam para todos os lados, os donos se sentiam muito legais por terem cachorros, mas nós só tínhamos o tempo livre, um ao outro, e um copo com sabão e água para as bolhas que explodiam em meu nariz. "Passeio pelo escuro e presto muita a atenção no que meu irmão ouve e como uma ferida aberta um calo, uma casca protetora, ah, eu quero chegar antes"...

Eu não sabia, mas aquela talvez fosse a época em que fomos mais felizes. Nossos problemas eram poucos, e sabíamos. Nossas roupas eram apropriadas para todas as situações, e gostávamos. E, melhor que tudo, tínhamos um mundo de possibilidades a nossa frente: bastava sonhar, e o sonho poderia se realizar nos anos seguintes. Bastava sentir, e o amor era o mais sincero de todos os tempos. Bastava um beijo e a pele eriçava ao mínimo toque.

Tínhamos um fusca bege, que você chamou de Brigitte em homenagem à Bardot. O horóscopo era o nosso oráculo, líamos Caio Fernando Abreu como se fosse escrito por nós mesmos. Até conhecermos os nossos dragões, aqueles que não conhecem nem sabem nada de paraíso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário